Domingo, 14 de Junho de 2009

«Quem quer festa, sua-lhe a testa!!!»

É difícil para uma pessoa com dificuldades auditivas participar num evento social, podendo a experiência tornar-se tão dolorosa que muitas vezes o desejo de sossego prevalece sobre a vontade de conviver com os outros, dando a sensação de que somos um bicho-do-mato e ficando nós cada vez mais isolados.

 

Tarefa árdua é também tentar explicar aos outros, aos ouvintes sem problemas de audição, por que razão tantas vezes preferimos ficar em casa a ir a um café ou a um restaurante. Como explicar a alguém que consegue seguir uma conversa a um ritmo normal, com mais de 3 pessoas,  que nós fazemos um sacrifício enorme para conseguirmos estar com quem gostamos num restaurante? 

Num restaurante que até pode não estar muito cheio, apenas com 2 ou 3 mesas ocupadas, com uma televisão que até pode estar desligada (há dias de sorte, porém raros!), com o ar condicionado  e as arcas refrigerantes ligadas, e o barulho das conversas nas outras mesas, e o ruído dos pratos e dos copos e dos talheres, e as bocas cheias de comida, transformando as posições normais dos lábios durante a fala, pessoas que por vezes falam ao mesmo tempo ou interrompem quem falava, mesmo mesmo quando estávamos quase a perceber o sentido da frase?!...

E dizer também que quando baixamos o olhar para o prato, para encher a colher de sopa, ou cortar um bocado de carne, ou espetar um bocado de batata, não conseguimos perceber nitidamente o que é dito, porque não vemos a boca de quem fala e porque não estamos concentrados no que é dito, mas na comidinha?

E que se vamos a um restaurante de comida italiana, ou brasileira, ou mexicana, ou chinesa, ou em que quem nos serve simplesmente tem um pouco de sotaque alentejano, quase precisamos de um intérprete para fazer tradução simultânea do que nos é aconselhado ou perguntado, mesmo que as «fichas mentais de vocabulário» estejam prontas para entrar em acção?

Bom, e que dizer das reuniões familiares ou de amigos, com conversas rápidas sobre assuntos conhecidos só de alguns, com crianças a correr e a gritar de um lado para o outro, com música a tocar em fundo, com gente que se levanta e senta a uma velocidade digna do Guiness, gritando, cantando, dançando, tudo ao mesmo tempo e conseguindo por vezes acertar mesmo no microfone da prótese, precisamente quando grita?

E como confirmar que numa festa ao ar livre a música em altos berros já quase nem nos faz confusão, porque como não percebemos ninguém, já desistimos e simplesmente nos «desligamos» de tudo? Há até quem se desligue literalmente (desligando as próteses auditivas - olé, N.!), há quem vá dizendo que sim ou que não, a intervalos regulares, deixando os outros falar e esperando que um sim ou um não até possa servir de resposta ou simplesmente de confirmação de que estamos a ouvir e a perceber, mesmo nem sonhando do que fala o outro.

E como fazer com que acreditem que sim, estamos a falar sinceramente quando dizemos que também fazemos leitura labial, que nem sempre chega o som e que, por isso, quando falam connosco há que olhar para nós e mostrar a boca, e que não, não é necessário falar muito mais alto nem tão devagar que quase parece que a deficiência que temos não é auditiva mas mental?

 

«Et pourtant» (o jeito que me dá o Léo Ferré, volta não volta!!)... há dias que até vale a pena, porque o prazer de estar com alguém que já não víamos há muito e de quem gostamos «aos molhinhos» faz pesar o prato da balança para o lado do sim! Foi o caso, uma noite destas, num baile (mais jantar que baile) de finalistas do 9º ano, em que pude rever os meus últimos meninos, abraçá-los e perceber só um pouquinho do que diziam, porque se esqueciam frequentemente que a «stôrinha» não ouve bem... mas como soube bem estar com eles, mesmo não sabendo exactamente sobre o que conversavam, sentindo apenas, com os «ouvidos do coração»!

 

........

 

 

 

Festa, de Milton Nascimento

Já falei tantas vezes
Do verde nos teus olhos
Todos os sentimentos me tocam a alma
Alegria ou tristeza
Espalhando no campo, no canto, no gesto
No sonho, na vida
Mas agora é o balanco
Essa dança nos toma
Esse som nos abraça, meu amor (você tem a mim)

O teu corpo moreno
Vai abrindo caminhos
Acelera meu peito,
Nem acredito no sonho que vejo
E seguimos dançando
Um balanço malandro
E tudo rodando
Parece que o mundo foi feito pra nós
Nesse som que nos toca

Me abraça, me aperta
Me prende em tuas pernas
Me prende, me força, me roda, me encanta
Me enfeita num beijo

Pôr do sol e aurora
Norte, sul, leste, oeste
Lua, nuvens, estrelas
A banda toca
Parece magia
E é pura beleza
E essa música sente
E parece que a gente
Se enrola, corrente
E tão de repente você tem a mim

 

Rabiscado por... misal às 18:49
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2 comentários:
De Anónimo a 25 de Junho de 2009 às 19:02
Realidade, nua e crua. Adorei o teu texo...
Beijinhos
Borboleta_A.
De S* a 21 de Junho de 2009 às 01:53
Adorei este texto! :-))) bjs. Su.

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